Bem-vindos à geração dos “digital natives”
Nativos digitais (digital natives). É desta forma que Kathleen Tyner, professora do Departamento de Rádio, Televisão e Filme da Universidade do Texas, EUA, classifica a atual geração de crianças e adolescentes americanos. Em entrevista à revista Paidéia TV, uma publicação do Observatório Europeu da TV Infantil, Tyner afirma que a garotada gasta boa parte do seu dia com aquilo que ela chama de “screen time” (tempo de tela), o que inclui as mensagens on-line; os jogos eletrônicos; a navegação na internet; o download de músicas e documentos pela web; o envio de e-mails; e, é claro, o ato de assistir à TV, como acontece em qualquer parte do mundo. Segundo ela, trata-se de uma geração que integra a mídia cada vez mais à sua vida.
Autora e editora de diversos livros sobre educação e os usos dos meios de comunicação, a professora que participou da 4ª Cúpula Mundial de Mídia para Crianças e Adolescentes, realizada em abril de 2004, no Rio de Janeiro, conta que embora a televisão ainda esteja presente neste cotidiano, o seu consumo vem caindo. Ela afirma que as emissoras de TV e os próprios anunciantes estão em crise por dois motivos: a faixa etária de 18 a 34 anos vem diminuindo e os jovens estão cada vez mais ligados aos conteúdos e atividades on-line. “Eles nem se quer vão muito ao cinema”, destaca.
Na sua avaliação, a escola deveria aproveitar a estreita relação entre os jovens e as tecnologias para promover a aprendizagem, como parte do currículo escolar. “O problema surge quando as crianças e os jovens são chamados para participar dos projetos escolares e são, neste momento, instruídos a deixarem todas as suas ferramentas digitais do lado de fora. Parece ridículo pedir aos estudantes que abandonem seus conhecimentos e excelentes atitudes digitais na porta da escola”.
Para Tyner, as novas tecnologias – que fazem parte do universo das crianças – são simplesmente ferramentas de alfabetização que se somam as que já são utilizadas. “São novas tecnologias do intelecto que permitem que nossa comunicação aconteça de forma mais rápida, visual e interativa”.
Defendendo o uso da mídia na sala de aula e uma especialização nesta área nos cursos de formação de professores, Kathleen está certa de que daqui a alguns anos o cenário do uso da mídia na sala de aula será outro. “À medida que esta geração de nativos digitais se transforme na próxima geração de professores, eu penso que um maior uso da mídia na sala de aula será inevitável”, destaca.
Acompanhe a entrevista:
Paidéia TV – Qual é o cenário da mídia e sua relação com as crianças e os jovens nos Estados Unidos?
Kathleen Tyner – As crianças americanas são crianças ocupadas. Faz parte da cultura delas praticar esportes, trabalhar, freqüentar atividades extra-escolares e ajudar nas tarefas familiares – tudo ao mesmo tempo. Além disso, elas gastam parte do seu dia com o que chamo de ‘tempo de tela’, como acontece em todo o mundo. Este tempo de tela inclui enviar mensagens; brincar de videogame; navegar na internet, enviar e-mails, baixar músicas da web e assistir à TV. De fato, esta geração de crianças é uma geração de ‘digital natives’ que integram cada vez mais a mídia em suas vidas. O problema surge quando elas são solicitadas a participarem de programas educativos. Neste momento, elas são instruídas a deixarem as suas ferramentas digitais na porta das escolas. Em vez disso, seria melhor que os educadores pudessem destacar o que as crianças aprendem dos meios de digitais, aproveitando o seu potencial para a aprendizagem, como parte do currículo escolar. À medida que esta geração de nativos digitais se transforme na próxima geração de professores, eu penso que um maior uso da mídia na sala de aula será inevitável.
Paidéia TV – Diversas entidades e instituições têm criticado a existência de programas ‘trash’ durante o horário infantil. O que deveria ser exibido nas televisões públicas e privadas durante o horário infantil?
Kathleen Tyner – A Constituição dos Estados unidos defende a liberdade de expressão. Portanto, é muito difícil regular esta liberdade de expressão. Além disso, o que para uma pessoa é trash, para outra não é. Algumas pessoas que criticam a televisão têm um pânico moral sobre o conteúdo da televisão, decididamente exagerado acerca do dano que dizem causar às crianças. Afinal, as crianças e os adolescentes já não vêem tanto a televisão. Nem sequer vão muito ao cinema. Os anunciantes e as emissoras de TV estão em crise porque a faixa etária de 18 a 34 anos está diminuindo. Em vez disso, os jovens estão escolhendo seus próprios conteúdos on-line, criando blogs e jogando games. Portanto, a melhor forma de se aproximar deles é cultivar o bom senso sobre a mídia, ensinar media literacy (alfabetização midiática) e incentivá-los a criarem suas próprias mensagens. O pior que se pode fazer é regular o acesso à TV e à internet para que as crianças estejam seguras; resultando num conteúdo tão ‘limpo’ que esteja desprovido de prazer e estímulo para adultos e para qualquer outra pessoa.
Paidéia TV – Quais são as vantagens das novas tecnologias, como o celular, os jogos eletrônicos e a internet?
Kathlenn Tyner – Essas tecnologias são simplesmente ferramentas de alfabetização que se somam as que já utilizamos para comunicarmos no passado. São novas tecnologias do intelecto que nos permitem comunicar mais rápido e de forma mais visual e interativa. Elas têm o potencial de uma comunicação mais interativa, aproximando a qualidade da comunicação oral. A questão é se são utilizadas para propósitos bons ou maus. Se nos basearmos na história, serão utilizadas para ambos os fins.
Paidéia TV – A senhora já públicos livros e dezenas de artigos. O que deseja transmitir por meio deles?
Kathleen Tyner – Se estudarmos a história da alfabetização, veremos que a sociedade vai ‘de volta ao futuro’ em termos de alfabetização. Em outras palavras, no passado tínhamos muito mais informação visual – vitrais coloridos, pictogramas e informação visual de diversos tipos – integrada ao texto alfabético. De fato, depois da Bíblia de Gutemberg, desde os meados do século XV até os dias de hoje, vivemos uma outra história, na qual se favorece o texto em vez das imagens. Mas na era digital, textos, imagens e sons se mesclam, utilizando todos os sentidos para comunicar e criar um significado. Em meus livros, exploro muitos tipos de alfabetização contemporânea, que chamo de multialfabetização. Isso inclui a alfabetização visual, a tecnológica, a dos meios de comunicação e as outras alfabetizações do século XX1. Estas nomenclaturas são provisórias porque a natureza das ferramentas eletrônicas e digitais está em constante evolução. Sem dúvida, o objetivo dos meus livros é fomentar um tipo de educação que proporcione a todos os estudantes a oportunidade de analisar num sentido crítico e estratégico o uso de todas as alfabetizações que estiverem em seu alcance para ampliar suas possibilidades na vida. Quero que as pessoas analisem de forma crítica e produzam a comunicação em diferentes formas. Já que a alfabetização e a escolaridade estão intimamente relacionadas, penso que é importante levar as alfabetizações do século XXI até a escolaridade contemporânea. Parece ridículo pedir aos estudantes que abandonem seus conhecimentos e excelentes atitudes digitais na porta da escola.
Paidéia TV – A senhora conhece escolas em sua cidade que trabalhem com a alfabetização midiática?
Kathleen Tyner – Há tantas escolas nos Estados Unidos que incorporam a análise e a produção midiática em seus planos de estudo que não poderia nomear todas. Além disso, existem muitos programas de alfabetização midiática para jovens que são desenvolvidos fora do âmbito escolar, em centros comunitários, por exemplo. Em Austin, Texas, onde vivo agora, me orgulha bastante ver que a Universidade do Texas oferece um programa de alfabetização voltado para os futuros professores. Os professores de Ciências desta universidade que pretendem obter um certificado de ensino devem cursar a disciplina de alfabetização midiática no Departamento de Rádio, Televisão e Filme da instituição.
Paidéia TV – O que a senhora deseja para 2006?
Kathleen Tyner – Espero que cada pessoa tenha a oportunidade de aprender, utilizar e analisar profundamente os meios de comunicação para que possam interagir melhor dentro de sua comunidade. Quero ver as aptidões midiáticas do século XXI integradas, diariamente, em cada programa de formação pedagógica, assim como em todas as aulas dos Estados Unidos.
Texto – Revista Paidéia TV
Fotos – Distribuição
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